segunda-feira, 25 de março de 2013

Experimento #1 – Na janela, um clown. (Parte 1)


                Há muito tempo queria expressar-me artisticamente na rua. Faz um ano que o grupo de teatro que eu participo foi fundado, o Teatro Persona. Isso só faz minha vontade aumentar. Mas não sabia o que levar pra rua. Sei tocar um pouco alguns instrumentos, mas é muito pouco, não tenho repertorio. Também não tenho nenhum esquete ou numero pro meu clown, não tenho nenhuma peça de teatro pra apresentar, nada. Ir pra rua me era uma vontade enorme, mas não sabia como fazer ou o que fazer lá. Até que comecei a pensar mais sobre o assunto.

                Um dia vi Paulo Michelotto falando sobre umas ideias que ele tinha para serem executadas na praça. Era algo assim; Uma pessoa que chegava cheia de bugigangas ajeitava tudo no meio da praça e depois guardava e ia embora. Apenas isso. Confesso que na época que eu escutei fiquei pensando “Mas o que isso significa? Qual o sentido disso?”.  Continuei refletindo sobre isso.

                Esse ano é o ano do meu estagio curricular em Gestalt-terapia e meu Trabalho de Conclusão de Curso provavelmente será sobre O Dialogo e o Dialógico do Clown. Foi quando as reflexões sobre existencialismo, fenomenologia e Gestalt começaram a se fundir profundamente com meus conhecimentos e reflexões sobre o clown. Um dia, conversávamos na supervisão e estávamos combinando de fazer ataques de arte na minha faculdade, a FAFIRE. A pretensão não era nenhum espetáculo mirabolante, nem nada do gênero. Mas pequenas intervenções, onde se quebrasse com o dia-a-dia. A simples quebra do habitual. Foi quando muita coisa começou a se fundir. A simples quebra do cotidiano.

                Finalmente vamos ao primeiro experimento – Na janela, um clown.

No dia 19 de março de 2013, o dia que eu criei o blog, eu vim refletindo no ônibus. Estava certo de que iria inventar e pensar algo para fazer na rua. Pensava nisso com a cabeça encostada no parapeito da janela. Enquanto eu pensava, olhava as pessoas em seu cotidiano. Foi quando eu percebi que vez ou outra eu cruzava com olhares. Comecei a perceber pequenas quebras em certa linearidade. Notei que quanto mais energia eu colocava naquele olhar, mas quebras na constância iam ocorrendo. Eu, de cara limpa, comecei a me conectar com as pessoas em frações de segundos. Cheguei a me comunicar com algumas crianças na rua, que chegaram a falar comigo. 

Não foi uma situação singela. Era um grupo de quatro garotos que largavam do colégio, tinham uns 12 anos em média. E um deles tinha uma pedra na mão e pretendia jogar no ônibus. Foi quando o olhar dele encontrou o meu. Não reprovei, não franzi a testa. Simplesmente o olhei com verdade, energia e aceitação. De tal modo que nem o julguei. Simplesmente pensei “Espero que se ele jogar, não machuque ninguém”. O choque desse olhar deve ter causado algo nele. Algum incomodo profundo. Foi tanto que ele soltou a pedra e começou a me xingar. Mas senti que era mais raiva dele mesmo que de mim. Continuei olhando calmamente. Ele jogou um coração-de-nego na lataria do ônibus, no lugar da pedra que segurava antes. Daí em diante eles começaram a se xingar e dizer “Olha, o homem tá olhando!!!” cada um que culpava o outro. Mas meu olhar continuou o mesmo e a quebra foi tão grande, que eles se desconcertaram e começaram a brincar, a rir e a olhar pra mim com um misto de vergonha e curiosidade.

A quebra da constância. A quebra do cotidiano, do esperado. Meu exercício tinha começado antes mesmo de eu subir o nariz. Continuei vendo velhos em seus carros magníficos, crianças a dar xau. Tudo isso, proporcionado apenas por um olhar verdadeiro e sem julgamentos. Como seria quando eu subisse o nariz?

As pessoas são sedentas e curiosas por pessoas que as olham de verdade. Sem olhar de medo, de julgamento, de curiosidade. Um simples olhar verdadeiro.


segunda-feira, 18 de março de 2013

O primeiro começo.


   "É nisso que reside o efeito do palhaço: quando todos no mundo almejam vencer, ele explora perder; quando no circo todos voam, ele cai; quando as feras são domadas, ele é indomável; enfim, quando o poder é gigantesco, ele vence pela fraqueza... Em suma, embora ocupe o lugar do perdedor, ele possui um trunfo: sim, o palhaço perde, mas ele sempre recomeça! Aí está sua capacidade de criação / re-creação, sua potência surge desse momento, desse encontro com sua fragilidade. Nesse instante, ele captura o outro por sua humanidade, não por sua capacidade de superação. Essas são figuras recorrentes entre todos os grandes palhaços: por isso sempre se vê a imagem de Carlito indo embora sozinho."

[...]

Em poucas palavras, o palhaço tem a função de revelar aquilo que queremos esconder.
Alexandra C. Tsallis



São com essas palavras que inicio meu diário de bordo. A bordo da vida, começo a escrever e compartilhar com vocês minhas experiências clownescas. Desde muito tempo venho descobrindo, investigando e inventando o que é ser palhaço. Mas foi em novembro de 2012 que as coisas tomaram prumos mais firmes. Quando iniciei oficialmente o processo mágico de clownificação. Dom Gentileza me mostrou um mundo. Um mundo que já existia em mim. Em mim e no outro. Um mundo esquecido, negado e escanteado. Mas um mundo vivo, espontâneo e rico. Um mundo interno e infinito. Mas o Projeto Duberoux é para explorar também outro mundo. Olhar com outra lente um mundo que não podemos ignorar tão facilmente, mas que mesmo assim conseguimos, com muito esforço, maquiar e negar. Este mundo é a rua.

O Projeto Duberoux vem mais do que com um simples desejo de curiosidade, vem com uma necessidade existencial. Uma necessidade existencial de conhecer este mundo, estes mundos. Além de uma mobilização politica e artística de retomada da rua, que me incentiva bastante, me vem também a mobilização da alma, que me impele a conhecer, vivenciar, experimentar e experienciar novos mundos nas praças, nas ruas, nos pares de olhos.

A ideia é dividir com vocês meus experimentos urbanos, exercícios de re-conhecimento. Descreve-los, documenta-los e refletir sobre eles. Sempre que eu tiver uma ideia de exercício/experimento e pô-la em prática, virei aqui dividir com vocês. Além de um espaço de compartilhamento de experiências, também desejo que este blog seja um local de reflexão, de companheirismo, de troca de ideias e, pretensiosamente, queria muito que este blog servisse de incentivo a todo artista que quer experimentar as ruas, mas tem suas dificuldades. Fiquem a vontade para comentar, refletir, opinar, criticar etc. Sintam-se bem vindos!


Desenho: Lucas Michelotto