Há
muito tempo queria expressar-me artisticamente na rua. Faz um ano que o grupo
de teatro que eu participo foi fundado, o Teatro Persona. Isso só faz minha
vontade aumentar. Mas não sabia o que levar pra rua. Sei tocar um pouco alguns
instrumentos, mas é muito pouco, não tenho repertorio. Também não tenho nenhum
esquete ou numero pro meu clown, não tenho nenhuma peça de teatro pra
apresentar, nada. Ir pra rua me era uma vontade enorme, mas não sabia como fazer
ou o que fazer lá. Até que comecei a pensar mais sobre o assunto.
Um dia
vi Paulo Michelotto falando sobre umas ideias que ele tinha para serem
executadas na praça. Era algo assim; Uma pessoa que chegava cheia de bugigangas
ajeitava tudo no meio da praça e depois guardava e ia embora. Apenas isso.
Confesso que na época que eu escutei fiquei pensando “Mas o que isso significa?
Qual o sentido disso?”. Continuei
refletindo sobre isso.
Esse
ano é o ano do meu estagio curricular em Gestalt-terapia e meu Trabalho de
Conclusão de Curso provavelmente será sobre O
Dialogo e o Dialógico do Clown. Foi quando as reflexões sobre
existencialismo, fenomenologia e Gestalt começaram a se fundir profundamente
com meus conhecimentos e reflexões sobre o clown. Um dia, conversávamos na
supervisão e estávamos combinando de fazer ataques de arte na minha faculdade,
a FAFIRE. A pretensão não era nenhum espetáculo mirabolante, nem nada do
gênero. Mas pequenas intervenções, onde se quebrasse com o dia-a-dia. A simples
quebra do habitual. Foi quando muita coisa começou a se fundir. A simples
quebra do cotidiano.
Finalmente
vamos ao primeiro experimento – Na
janela, um clown.
No dia 19 de março de 2013, o dia
que eu criei o blog, eu vim refletindo no ônibus. Estava certo de que iria
inventar e pensar algo para fazer na rua. Pensava nisso com a cabeça encostada
no parapeito da janela. Enquanto eu pensava, olhava as pessoas em seu
cotidiano. Foi quando eu percebi que vez ou outra eu cruzava com olhares.
Comecei a perceber pequenas quebras em certa linearidade. Notei que quanto mais
energia eu colocava naquele olhar, mas quebras na constância iam ocorrendo. Eu,
de cara limpa, comecei a me conectar com as pessoas em frações de segundos.
Cheguei a me comunicar com algumas crianças na rua, que chegaram a falar
comigo.
Não foi uma situação singela. Era
um grupo de quatro garotos que largavam do colégio, tinham uns 12 anos em
média. E um deles tinha uma pedra na mão e pretendia jogar no ônibus. Foi
quando o olhar dele encontrou o meu. Não reprovei, não franzi a testa.
Simplesmente o olhei com verdade, energia e aceitação. De tal modo que nem o
julguei. Simplesmente pensei “Espero que se ele jogar, não machuque ninguém”. O
choque desse olhar deve ter causado algo nele. Algum incomodo profundo. Foi
tanto que ele soltou a pedra e começou a me xingar. Mas senti que era mais
raiva dele mesmo que de mim. Continuei olhando calmamente. Ele jogou um coração-de-nego
na lataria do ônibus, no lugar da pedra que segurava antes. Daí em diante eles
começaram a se xingar e dizer “Olha, o homem tá olhando!!!” cada um que culpava
o outro. Mas meu olhar continuou o mesmo e a quebra foi tão grande, que eles se
desconcertaram e começaram a brincar, a rir e a olhar pra mim com um misto de
vergonha e curiosidade.
A quebra da constância. A quebra
do cotidiano, do esperado. Meu exercício tinha começado antes mesmo de eu subir
o nariz. Continuei vendo velhos em seus carros magníficos, crianças a dar xau.
Tudo isso, proporcionado apenas por um olhar verdadeiro e sem julgamentos. Como
seria quando eu subisse o nariz?
As pessoas são sedentas e curiosas por pessoas que as olham de verdade. Sem olhar de medo, de julgamento, de curiosidade. Um simples olhar verdadeiro.
As pessoas são sedentas e curiosas por pessoas que as olham de verdade. Sem olhar de medo, de julgamento, de curiosidade. Um simples olhar verdadeiro.
Foto: Jonas Araújo

